Redirecionando
O textos e o centro estão de mudança: marinaxisto.com.
Aqui continua, mas só as rapidinhas da vida.
Nude II
Xavier não ouvia Maria Julia. Observava-a com a certeza de que seria uma das últimas vezes que o faria de tão perto, dividindo uma cama de solteiro como se fosse o espaço mais confortável do mundo, pernas entrelaçadas, barrigas grudadas. Não sabia se a penúltima, a antepenúltima, a última, mas terminaria o que se intitulou entre eles relacionamento. Não, não terminaria: o amor entre os dois seria vítima de um golpe e naturalmente se desmancharia sob influência do tempo, difuso em pedaços pontiagudos que vez ou outra seriam encontrados por Julia embaixo de um sofá ou em algum canto que a vassoura não alcança. Xavier aceitaria viver com pequenos cortes abertos nas mãos e o sangue escorrendo, manchando todas as novas peles que tocasse, submetendo os novos amores aos fantasmas, ou melhor, aos zumbis que faziam parte de seu coletivo de relações mal resolvidas, perseguindo todo novo namoro como mortos vivos farejam carne.
Qualquer ser humano normal possui suas contradições. Xavier não é diferente, não há diferença entre ele e você. O que chamamos diferença é, na verdade, uma característica menos ou mais aflorada em um ser do que em outro. Por exemplo, Xavier pode ser mais ansioso comparado a você. Ou você pode se identificar com a ansiedade do rapaz personagem. Xavier possui tantos erros em sua biografia quanto você. O que chamamos diferença são as consequências desses erros, a intensidade com que são capazes de afetar cursos, modificar estruturas.
Xavier morreu tentando consertar erros. Foi um acidente.
Nude
Embora acreditasse em seus próprios argumentos, Xavier jamais sentiu força neles. Por isso, evitava discussões com uma cara fechada ou silêncio que ligasse o assunto aos seus sentimentos mais íntimos, provocando certo constrangimento, o que impediria o oponente de cutucar o assunto por receio da deselegância. O escudo perfeito. Era covarde, porém, manipulador de primeira. Fraco porque desonesto consigo, porém, ileso por fora. Ileso e sozinho, sozinho porque ileso.
Constatou que estar só era um alívio decepcionante. Então, começou a escrever o que parecia ser verdade, só para dizer algo a si mesmo, ter um diálogo.
A verdade é que Xavier resolveu escrever para poder se apagar aos poucos. Mal sabia ele que seria para sempre refém do seus espelhos de papel, pois estes acabariam como explicações para suas atitudes (ou falta de).
You paint yourself white
And feel up with noise
But there’ll be something missing
The Boy With The Thorn In His Side III
Muito foi descoberto sobre Xavier postumamente. Por exemplo, que ele espalhava pelo mundo cadernos de rascunho com o mais óbvio de sua cabeça e o pior de sua caligrafia. Geralmente, cadernos com menos da metade das folhas ocupadas - não se sabe se eram esquecidos/perdidos antes de completos ou simplesmente ignorados por suas folhas não cumprirem o papel inspirador que um possível caderno perfeito assumiria.
Amassado em uma mochila, foi encontrado um desses cadernos em sua versão desfigurada, já sem capa. Em uma das poucas páginas legíveis - umas haviam sido rabiscadas para encobrir verdades em potencial, outras garranchadas sob efeito de álcool -, mais um fato xavieresco veio à tona:
Há tempos noto a decadência de minha caligrafia. Antes tida como uma das mais bonitas da sala, talvez uma das poucas compreensíveis, hoje é motivo de desgosto. Fiz questão de estragá-la, como num ato exemplar de rebeldia do inconsciente. Faz parte da coleção de atitudes que meu organismo tomou para se livrar da imagem lisa e limpa que eu passava. Pessoas lisas e limpas nasceram para ser nada, ou apenas trampolim, ponte, passagem. Nunca quis ser passagem. Quero passar e deixar a marca da sola do da minha bota no barro, no cimento fresco, no carpete limpo.
Posso até ter nascido para ser limpo e liso, mas ninguém precisa saber, a não ser minhas professoras no primário.
The Boy With The Thorn In His Side II
Xavier gastava que gastava tentando escrever sobre a espuma da cerveja, a brasa do cigarro que queima sozinho, os rabiscos cravados na mesa do bar… Todas essas imagens urbano-sentimentais pequenas. Acreditava que, cedo ou tarde, surgiria alguma analogia entre… Uma analogia com… Uma analogia sobre… ??? … Bem, alguma analogia, qualquer texto de um parágrafo.
Manifesto da Truculência [um rascunho]
Tenho pavor do terror salário, do terror tarja preta, do terror plano de saúde, do terror Santíssima Trindade. Deixar-se humilhar para que a casa própria, a comida anabolizada própria e a chibata própria sejam direito, coisa de cidadão. Cordeirinho way of life. Escolheram por mim, fujo. Encolheram a Arte, prenderam o Teatro no palco, o que a gente faz?
Não compre o Belo. Acredito na arte que sequestra, espanca e ri da angústia. Não é texto decorado, marca dada, improvisação amébica. Quero o ator que escreve com o corpo, que tira a cena do palco e a injeta na veia do espectador. O artista que dopa, o artista fornecedor da mais pesada droga: a vida. Não há convite, é perseguição.
Agarrei a perna do Teatro quando descobri que os prédios dos homens eram construídos com areia da praia.
O negócio é chutar os pilares incansavelmente. Que caiam o teto da igreja e o teto do shopping. Não é desconstrução, é demolição. Desconstruir deixa uma viga do passado, fica o presente contaminado e o futuro cancerígeno. Demolir é sarcástico, sobram pedaços que nunca mais se encaixarão da mesma forma e o desespero pela inutilidade de todo aquele entulho. Não estaremos aqui quando construirem o novo. Não é pelo novo que faço arte, é pela destruição. Que os próximos construam, meu tempo é de arruinar o que está posto, de ridicularizar nossos pijamas.
É o objetivo, não a ideia. As ideas estão mortas. Os pensadores foram zipados, basta procurá-los no Google e fazer download. Os sentimentos estão vivos, ódios e amores. São truculentos e desesperados, assaltam para comer. É o objetivo, não a idéia.
Tentaram me separar de você pela cor da pele, pela classe, pelo sexo, pela geografia… Mas existem os sentimentos que habitam nossas respectivas carnes e tomam forma através do gesto. Eles precisam rasgar nossas carnes, colidir e explodir o prédio construído com areia da praia. É terrível, mas é preciso. É o objetivo, não a ideia.
- Exercício proposto em pesquisa do Projeto 3: Utopias e Manifestos. Departamento de Artes Cênicas - ECA - USP.
“Podemos dizer com tranquilidade que a política de nosso tempo não é mais política porque, em vez de ser laço em que as relações entre indivíduos e instituições são valorizadas constituindo a ação capaz de dar sustentabilidade à sociedade, se transformou no gesto de negar o outro, o gesto antipolítico por excelência. (…) o que caracteriza a humilhação elevada a ação antipolítica é uma pragmática bem simples: a pressão geral das instituições para que os cidadãos desacreditem deles mesmos e da própria coisa pública que os define como tais.”
Leia na íntegra: Humilhação, por Marcia Tiburi.
The Boy With The Thorn In His Side
Xavier era herói, mas fazia nada para se curar desse mal. Salvava o mundo de seus garranchos digitados e guardava suas melhores histórias para aquela cerveja de um copo só. Decidiu falar sozinho - ou pensar alto - quando descobriu que seu nome causava mais impacto do que seus “suspiros poéticos” mal feitos.
Era do tipo que se matava em contos, não por covardia, mas pelo prazer inenarrável de se acabar de mil maneiras diferentes. Prédio, navalha, bala, veneno, corda, água… Talvez a mais fascinante fosse mesmo pular de uma altura razoável. Parecia querer dizer “Eu me entrego. Se alguém tiver alguma objeção a respeito, desafio a encontrar o pause!”.

