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Marina Xisto

Canceriana, corintiana e estudante de Artes Cênicas. Mas sou limpinha. Poeta de apartamento. Comprazimentos lúdicos aqui e o resto no marinaxisto.blogspot.com.br.
abr. 4 '12

Nude II

Xavier não ouvia Maria Julia. Observava-a com a certeza de que seria uma das últimas vezes que o faria de tão perto, dividindo uma cama de solteiro como se fosse o espaço mais confortável do mundo, pernas entrelaçadas, barrigas grudadas. Não sabia se a penúltima, a antepenúltima, a última, mas terminaria o que se intitulou entre eles relacionamento. Não, não terminaria: o amor entre os dois seria vítima de um golpe e naturalmente se desmancharia sob influência do tempo, difuso em pedaços pontiagudos que vez ou outra seriam encontrados por Julia embaixo de um sofá ou em algum canto que a vassoura não alcança. Xavier aceitaria viver com pequenos cortes abertos nas mãos e o sangue escorrendo, manchando todas as novas peles que tocasse, submetendo os novos amores aos fantasmas, ou melhor, aos zumbis que faziam parte de seu coletivo de relações mal resolvidas, perseguindo todo novo namoro como mortos vivos farejam carne.

Qualquer ser humano normal possui suas contradições. Xavier não é diferente, não há diferença entre ele e você. O que chamamos diferença é, na verdade, uma característica menos ou mais aflorada em um ser do que em outro. Por exemplo, Xavier pode ser mais ansioso comparado a você. Ou você pode se identificar com a ansiedade do rapaz personagem. Xavier possui tantos erros em sua biografia quanto você. O que chamamos diferença são as consequências desses erros, a intensidade com que são capazes de afetar cursos, modificar estruturas.

Xavier morreu tentando consertar erros. Foi um acidente.

1 nota Tags: Xavier contos

  1. marinaxisto publicou esta postagem